Refugiados iraquianos encaram as eleições com um misto de dúvida e de esperança
 

BEIRUTE, Líbano, 1 de Março (ACNUR) - Como muitos outros iraquianos que foram forçados a abandonar a sua terra natal devido a conflitos gerados pela intolerância religiosa, Murtada espera que as eleições legislativas de 7 de Março venham restaurar a segurança no Iraque para possibilitar o regresso seguro de centenas de milhares de iraquianos que vivem refugiados nos países limítrofes e espalhados por todo o Mundo.

Os refugiados iraquianos na Jordânia, Líbano, Síria e Egipto estão divididos no que se refere à sua participação nas próximas eleições do Iraque. Muitos refugiados iraquianos registados através do ACNUR são cépticos sobre se as urnas terminarão com os raptos, assassinatos e atentados suicidas que os expulsaram do seu país.

Muitos preferirão permanecer nos países de acolhimento ou procurarão reinstalar-se em países terceiros. O retorno ao Iraque em condições inseguras e instáveis não é uma opção para grande parte dos refugiados iraquianos.

"Se o Iraque fosse seguro, voltaria hoje. Infelizmente, a situação perigosa de segurança obrigou-nos a procurar asilo fora do Iraque. Nós não estamos optimistas que as eleições venham trazer muita segurança, mas estou esperançado que o meu voto faça a diferença e traga a mudança", disse Murtada, 26 anos, um dos refugiados iraquianos no Líbano.

Ameaças e ataques fizeram Murtada fugir em 2004 para o Líbano, onde se encontra registado como refugiado no escritório do ACNUR em Beirute.

"Fui perdendo a esperança de ser reinstalado e enfrentei duras condições, sem uma autorização de residência no Líbano, pelo que decidi assumir o risco e regressar ao Iraque em 2009", disse ele. "Uma semana depois, fui sequestrado e espancado e um mês depois a minha esposa foi morta num atentado suicida. Fugi de novo e decidi que não iria voltar até que o Iraque fosse um lugar seguro para viver"

No final de 2009, o ACNUR tinha nos seus registos cerca de 300.000 iraquianos na região, incluindo mais de 210.000 na Síria. Perto de 190.000 estão em idade de votar. As autoridades locais indicam que o número total é muito maior, afirmando que há centenas de milhares não registados por diversas razões.

Até agora, cerca de 35.000 refugiados iraquianos foram reinstalados nos Estados Unidos e Europa, mas a reinstalação nunca será uma solução para todos. A maioria dos refugiados continuará à espera que as condições dentro do Iraque melhorem para que possam regressar a casa.

Na sequência de um pedido da Comissão Eleitoral do Iraque, o ACNUR afirmou-se disponível para ajudar os refugiados iraquianos que vivem nos países vizinhos a participar nas eleições. O voto é considerado como uma importante oportunidade para consolidar a reconciliação nacional.

"Em estreita colaboração com as autoridades iraquianas e os governos dos países de acolhimento, a assistência do ACNUR será limitada ao fornecimento de dados demográficos sobre os iraquianos registados, informando-os sobre o seu direito de participar nas eleições, e fornecendo apoio logístico necessário para um bom e ordenado processo eleitoral", afirmou Melissa Fleming, porta-voz do ACNUR, em Genebra, em conferência de imprensa após o pedido do Iraque.

As Eleições serão um teste para saber se o país vai avançar na direcção da democratização e da paz ou se deslizará para a violência étnica e sectária. A segurança permanece frágil. A violência tem aumentado em diversas partes do país antes das eleições e, como os Estados Unidos planeiam reduzir a sua presença das tropas no Iraque até meados deste ano, a situação poderá tornar-se ainda mais crítica caso as eleições falhem o seu objectivo.

"Não vou participar nesta eleição. Por que iria eu votar, o que é que ganharia com isso? Nada", interroga-se Haidar, de 60 anos, refugiado na Síria. Irritado e tenso, ele revela o seu cepticismo sobre uma melhoria da situação de segurança no Iraque. "Não acredito que as eleições nos ajude a regressar ao Iraque. Não vou voltar para o Iraque sob estas condições inseguras", disse.

Os refugiados iraquianos referem a violência sectária como a maior ameaça de retornarem. Apesar de em muitos casos terem piores condições de vida nos países de acolhimento, temem por um regresso a casa.

Há muitas pessoas que ficaram traumatizadas no Iraque, pelas situações porque passaram e pela violência que se abateu sobre os entes queridos. O ACNUR tem prestado assistência à saúde física e mental através de parceiros locais.

Durante uma reunião de um funcionário do ACNUR com os refugiados iraquianos num subúrbio de Beirute, foram discutidos os problemas enfrentados pelos refugiados e como resolvê-los. A reinstalação está no topo dos seus pedidos, seguido por preocupações com a segurança económica, educação para seus filhos e os cuidados de saúde.

"Nós estamos entre a espada e a parede", disse Nada, que tem três filhos e um marido acamado. Está desempregada e vive apavorada com o receio de ser presa pelas autoridades que não fazem a distinção entre imigrantes ilegais e refugiados. "Eu vou votar porque eu ainda tenho esperança de um dia a segurança ser restaurada no Iraque".

Wafa Amr (ACNUR) em Beirute, Líbano